MINIFESTO ZONA BRANCA

(uma fábula ultracontemporânea)

Zona Branca: presídio de segurança máxima para onde são enviados os rebeldes, dissidentes e arruaceiros. A vida ali é um inferno. Não pensem em uma penitenciária convencional, com grossas paredes, grades e portões de ferro ou altas muralhas guardadas por policiais fortemente armados e com incontrolável instinto sádico. Nada disso. Trata-se de algo muito mais sombrio e sofisticado: uma área de deslocamento, em outra dimensão do espaçotempo, onde os presidiários são submetidos à incomunicabilidade total, embora possam ver em detalhes tudo o que está acontecendo em torno deles, no chamado mundo real. Um território de isolamento absoluto, concebido pelo gênio de cientistas inescrupulosos, financiados por grandes empresas transnacionais.

Como se disse, os presos não estão confinados atrás de paredes e grades de ferro. Eles andam pelas ruas, cruzam as cidades, quase roçam nas pessoas mas não podem se comunicar. É como se houvesse uma película, fina, transparente e impermeável entre eles e os demais. Submetidos a este cruel isolamento, a maioria passa a sofrer de terríveis delírios que deformam o corpo e estilhaçam a mente. Muitos enlouquecem, outros não suportam o sofrimento e se suicidam, e há aqueles que se arrastam dias e noites como zumbis, torturados por condições de vida subumanas.

Os que conseguem manter a lucidez assistem incrédulos ao espetáculo de degradação criado por poderes nem sempre identificáveis com facilidade. Daquela área de exclusão, em uma outra camada do espaçotempo, testemunham a cooptação de muitos artistas, transformados em celebridades e burgueses decadentes. Percebem a grosseira manipulação de fatos e idéias, responsável pelo ostracismo de criadores brilhantes e pelo sucesso de clones descartáveis. Atormentam-se pela visão das hordas de miseráveis que se humilham, matam e morrem nos semáforos e nos becos mal iluminados. Praguejam contra o império da publicidade e da ignorância.

Por isso, Zona Branca é muito mais sofisticada do que uma colônia penitenciária convencional. E incomparavelmente mais segura. As chances de fuga são mínimas.

Mas sem que o sistema de segurança encontrasse uma explicação plausível, um jovem dissidente conseguiu escapar. E resolveu escrever um livro de poesia.

(Orelha do livro Zona Branca, São Paulo, 2001)

 

 

 
   
   
   
   
   
 

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